O endividamento público brasileiro deve seguir uma trajetória de alta contínua nos próximos anos, atingindo o patamar de 89,7% do Produto Interno Bruto em 2030. A projeção consta no Relatório de Riscos Fiscais da União de 2026, divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional, que alerta para a necessidade de continuidade de reformas estruturais para garantir o controle das contas públicas a médio prazo.

O que aconteceu

De acordo com o levantamento do Tesouro, a Dívida Bruta do Governo Geral, indicador que engloba os governos federal, estaduais e municipais, fechará o ano de 2026 em 83,7% do PIB, o que representa um acréscimo de 5,1 pontos percentuais em comparação com os 78,6% registrados no final de 2025. A partir daí, a relação continuará subindo ano a ano, passando para 86,5% em 2027, 88,4% em 2028 e 89,6% em 2029, até alcançar o pico máximo em 2030. O recuo gradual só deve ocorrer nos anos seguintes, chegando a 86,3% em 2036.

O principal fator que impulsiona essa alta é a conta de juros. Entre 2026 e 2030, os juros devem acrescentar, em média, 8,4 pontos percentuais do PIB à dívida bruta anualmente. Em contrapartida, o crescimento nominal da economia ajudará a abater 6 pontos por ano, sendo 2,1 pelo avanço real do PIB e 3,9 pelo efeito da inflação. Somente no exercício de 2026, os juros respondem por 9,3 pontos de aumento.

a redução sustentada da dívida/PIB no médio prazo depende da continuidade de reformas que melhorem o ambiente de negócios e maior crescimento do PIB, com destaque para aquelas que promovam a consolidação fiscal

O relatório também simulou cenários alternativos. Em uma combinação adversa de déficits maiores, crescimento menor e juros elevados, a dívida bruta poderia chegar a 96,3% do PIB em 2030, ultrapassando os 100% em 2033 e atingindo 103,4% em 2036. Por outro lado, um cenário favorável reduziria o endividamento para 71,3% no final do período.

Pressões sobre o orçamento

O documento detalha diversas pressões que afetam os gastos públicos. Em 2025, mais da metade dos gastos primários cresceu sob influência direta da inflação e do salário mínimo. Cada real de aumento no valor do salário mínimo eleva as despesas do governo central em R$ 413,2 milhões em 2027. Além disso, o pagamento de sentenças judiciais, que representava 2,5% da despesa primária em 2017, tem previsão de alcançar 4,6% em 2026, montante equivalente a R$ 121,3 bilhões.

Outro ponto destacado é o estoque de ações contra a União com risco provável ou possível de perda, que somava R$ 2,19 trilhões em junho. O envelhecimento populacional também trará impactos, elevando despesas de saúde em R$ 22 bilhões até 2036, valores que serão compensados apenas parcialmente por economias na área de educação. No setor de estatais, o projeto de Orçamento prevê um aporte de R$ 6 bilhões nos Correios, com o Tesouro classificando como possível a necessidade de novos recursos emergenciais.