Duas condições comuns depois dos 50 anos, quando aparecem juntas, mais que dobram o risco de morte. É o que aponta um estudo internacional coordenado pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar): a soma de obesidade abdominal e deficiência de vitamina D elevou esse risco em 123%.
A pesquisa foi publicada em maio de 2023 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism e teve financiamento da FAPESP. O trabalho contou com cientistas da University College London, no Reino Unido, e acompanhou 5.520 participantes com 50 anos ou mais durante seis anos. Todos integram o English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), um dos maiores estudos do mundo sobre envelhecimento.
Os critérios usados na medição
Os pesquisadores consideraram deficiência de vitamina D os níveis abaixo de 30 nanomoles por litro de sangue. A obesidade abdominal foi definida pela circunferência: acima de 102 centímetros nos homens e de 88 centímetros nas mulheres.
Isoladas, as duas condições já pesam. Só a obesidade abdominal aumenta em 47% o risco de morte. Só a deficiência de vitamina D eleva esse risco em até 81%. Quando as duas coexistem, o risco mais que dobra em relação a quem não tem nenhuma delas.
Por que a combinação é mais perigosa
A explicação está na forma como a gordura age sobre o nutriente. Segundo o coordenador do estudo, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar, a gordura abdominal “sequestra” a vitamina D em circulação e a armazena nos adipócitos, as células de gordura. O resultado é que o nutriente não chega à corrente sanguínea em quantidade suficiente para cumprir suas funções.
Há um segundo obstáculo. Pessoas com obesidade tendem a expressar menos as enzimas necessárias para metabolizar a vitamina D, o que reduz ainda mais a disponibilidade dela no organismo. A carência compromete o sistema imunológico e agrava a inflamação crônica provocada pelo excesso de gordura.
O envelhecimento, por si só, já instala um estado de inflamação crônica de baixo grau, o chamado “inflammaging”. Em situação normal, a vitamina D funciona como reguladora do sistema imunológico e impede que esse processo saia do controle. Com nível baixo e gordura abdominal em excesso, o corpo entra em um ambiente desfavorável, que acelera doenças cardiovasculares e metabólicas e contribui para a perda muscular.
A vitamina D vai muito além do osso
Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mapeado um efeito em cascata: a falta de vitamina D leva à perda de força muscular, que reduz a velocidade de caminhada e termina em perda de autonomia e maior dependência nas atividades do dia a dia. Outro trabalho associou a carência ao risco de declínio cognitivo.
A substância é, na prática, um hormônio. Ela participa da regulação da pressão arterial e da frequência cardíaca e atua sobre o sistema nervoso central, o imunológico e o endócrino. Por isso, monitorar os níveis e tratar o excesso de gordura abdominal viraram medidas de prevenção depois dos 50 anos.







